Fui criada por uma Senhora (perceba-se o S grande), uma mulher que esqueceu a licenciatura que tinha em Quimica em prol de ser a dona de casa perfeita, a mãe perfeita, a esposa perfeita, a mulher perfeita.
Fui criada pela minha avó, verdade, já vos tinha dito, vivi com os meus avós até aos 12 anos mais coisa menos coisa.
Lembro-me de alguns ensinamentos que me deu, outros que não deu expressamente mas que me foram imcumbidos pela rotina e por andar sempre de olho.
Ela não saía de casa, nem para ir buscar o pão, sem se maquiar. Base, máscara de pestanas e blush eram o minimo. Ainda que não saisse de casa todo o santo dia;
À hora de almoço quando chegavamos para comer (ou ao jantar), o avental era tirado, religiosamente, uma senhora tem de estar bonita, a comer com a familia, amigos ou até sozinha. Lembro-me dela usar muitos lenços e echarpes que na altura me faziam perguntar: para quê? Se não saía de casa.
Na mesa, sempre bem posta e com toalha lavada e passada, não havia lugar para tachos, as travessas foram feitas para levar o comer à mesa. O pão era dentro do cesto, nunca espalhado pela mesa. A sopa era obrigatória e inquestionável no fim da refeição. Ninguém saía da mesa sem que o ultimo acabasse de comer, dava castigo falar com a boca cheia ou mexer no cabelo enquanto comiamos.
Não dormia de pijama, não ficava bem numa mulher, uma camisa de noite soltinha e confortável, porque até a dormir temos de nos sentir e ser bonitas;
Tinha vários tipos de lingerie, nunca usou (acreditem que nunca percebi) um unico soutien diferente da cueca, chegando a ter 2 cuecas iguais para cada soutien, porque a cueca mudamos todos os dias e o soutien não; Tinha conjuntos para a roupa clara, conjuntos para a roupa escura e conjuntos para as noites especiais;
Andar de fato de treino? Só quando iamos à natação e mesmo assim, à saida colocava um turbante de veludo na cabeça, muito chique, porque como é obvio, não tinha o cabelo arranjado e apresentavel;
Falando em cabelo, esse andava sempre - impecável - estavamos completamente proibidos de lhe tocar ou brincar com o cabelo, ai...ai;
As unhas, bem ... nunca fez manicure, sempre as arranjou sozinha, à noite quando já estavamos deitados ( eu e o meu avô), usava unhas grandes, arredondadas sempre com cores muito sóbrias;
Depilação, não havia cá Inverno nem verão, dizia-me que uma mulher deve estar preparada todos os dias para vestir o bikini ou ir a uma médico, até porque nunca saberiamos o que nos espera;
Dizia-me que uma mulher tem de acompanhar o seu homem para todo o lado e que temos a obrigação de ser a luz que os homens não tinham (lembro-me tão bem), nem que fosse para ir à bola, deveriamos ir sempre com um sorriso na cara, porque o nosso lugar era sempre ao lado deles. Não poderia haver lugar para as dores de cabeça ou indisposições ou " não me apetece";
Nunca devemos dizer aos outros que estavamos chateados com os nossos maridos ou com os nossos filhos, o que se passa dentro das nossas paredes, fica entre as nossas paredes. Por muitos amigos que tenhamos eles não precisam de saber do nosso mal.
Poderia continuar por aqui fora numa lista interminavel. Hoje, apeteceu-me falar-vos disto.
Dou comigo vezes sem conta a pensar : a minha avó matava-me se visse ... que saí à rua e só amarrei o cabelo; que fiz almondegas no Domingo de Páscoa e nem me dei ao trabalho de fazer um assado; que ando em casa de pijama ou de fato treino o dia todo; que detesto e não como sopa; que durmo de pijama e muitas vezes com o pijama do marido; que uso quase sempre a cueca diferente do soutien; que chego a parecer um macaco de tanto pelo...
Pior de tudo isto é ver esta Senhora, numa cama de um lar, sem me conhecer a mim ou a ela própria, a comer por uma sonda, a precisar que lhe arranjem o cabelo, lhe mudem a fralda, a mudem de posição, lhe puxem os lençois, de mãos amarradas e curvadas, com um olhar triste... tão triste!
Mesmo com todos os meus defeitos, mesmo com todos os desvios que fiz à educaçao que me deu, tenho a certeza que ela estaria orgulhosa de mim, como mulher e como mãe. Tenho a certeza e essa certeza dá-me força. Sei que se pudesse ainda hoje me chamaria de "baronesa".
Adorei ler-te. Reconheci neste texto quase tudo o que a minha mãe personifica para o melhor e para o pior. Hoje já não somos bem assim, podemos ter vontade própria e dizer que não nos apetece ir à bola acompanhado de um vai tu que eu vou ao cinema...
ResponderEliminarBeijinhoooo:)
Há coisas que mudaram para melhor, ainda havia muito machismo a pairar, outras há que mudaram para pior .
EliminarAs vivencias antigas já não têm espaço na sociedade actual, infelizmentw, nalgumas casa cada umcomepor si à hora que quer, naminha não, as regras mantêm-se sempre.
ResponderEliminarKis :>}
Imaginei que sim :)
EliminarGostei tanto. Uma Senhora com S grande, sem dúvida. Infelizmente nos tempos de hoje é difícil manter esses ensinamentos, mas devíamos. Bjs
ResponderEliminarVamos fazendo por isso... eu pelo menos tento.
EliminarUau senti-me a viajar e imaginei completamente a tua avó :) Que grande senhora! Tenho a certeza que ela está orgulhosa de ti, muito :)
ResponderEliminarBeijinho*
Obrigada, muito obrigada. Beijinho
EliminarQue lindo.
ResponderEliminarDe certeza és o orgulho da avó :)
Beijinhos